Marcelo Nogara

Blumenauense, médico gastroenterologista no Hospital Santa Isabel, lidera a equipe responsável por transplantes de fígados.

Marcelo Nogara por Marcelo Nogara.
Eu sou médico; além de médico, um cara que gosta muito de história, geografia, política: um curioso. Gosto de esportes náuticos, de velejar, jet ski, veleiro. Gosto de ficar muito na família, desde os meus avós até meus pais, minha mulher, minhas filhas. Eu me defino assim, um cara muito curioso, que gosta de estudar e de salvar vidas.

Resumindo: estudioso, esportista, amante da cultura, das artes, do esporte e da família.
Exatamente.

Salvar vidas é a sua missão?
Com certeza.

Naturalmente, nessas outras atividades ainda um pouco de voluntariado?
Também. A gente faz parte do Rotary Club, a parte beneficente; faço parte da Amabel, que é a Associação dos Amigos do Santa Isabel, que é beneficente, pra conseguir equipamentos, reformar quartos, etc. Faço essa parte de voluntariado.

Quero dizer da minha gratidão por ajudarem meu irmão Luiz Castro Neto a viver mais alguns anos. Ele foi transplantado duas vezes. Na primeira, que durou seis anos e meio, a doença “comeu” o novo fígado. No segundo transplante, quando ele já estava muito fragilizado – praticamente morto -, vocês fizeram novo transplante que completa 14 anos no final deste setembro. A família é muito grata ao senhor e à sua equipe de profissionais pela proeza.
Essa história que você contou é que me motivou a começar esse trabalho. Fiz minha formação em Curitiba e em São Paulo; fiz mestrado e voltei para Blumenau. Eu era gastroenterologista geral, trabalhava com fígado. Eu tinha um grande professor que me estimulou a trabalhar com fígado, o Professor Parisi, de São Paulo. Eu o acompanhei, vo-luntariamente, nos transplantes de fígado lá no Sírio-Libanês. Voltei para Blumenau, uma cidade de trezentos mil habitantes na época, e só faziam transplantes de rins. Tinham feito um de coração, nenhum de fígado. No estado de Santa Catarina ninguém tinha feito transplante de fígado. Comecei a escutar justamente histórias iguais à do Luiz. E o que fazer? Mandar para Curitiba transplantar? Para São Paulo? Tinha um problema, eles falavam que seus acompanhantes não teriam recursos para se manter por lá… Comecei a ouvir história atrás de história, e falei: “nós temos que mudar esse cenário”.

Quem, afinal, começou esse trabalho?
Eu comecei. Chamei o Júlio, que chamou o Mauro e nós três começamos, no ano 2001. Não foi a instituição que falou: “vou pegar vocês, vocês vão estudar lá, voltam e trabalham aqui”. Tem muita carga pessoal em cima disso, muito esforço pessoal.

O senhor já tinha visto algo nos Estados Unidos, não?
Em 2000 eu tinha ido aos Estados Unidos e acompanhei a Mayo Clinic em Minnesota. Vi que eles faziam transplante numa cidade pequena, uma cidade de 60.000 habitantes, super referência nos Estados Unidos e no mundo todo. Então pensei: “Blumenau, uma cidade pequena, dá pra fazer também”. Florianópolis não fazia transplante de fígado; a maior cidade, Joinville, não fazia transplante de fígado. Vai ser Blumenau. E começamos a fazer. O meu pai (Dr. Joarez Luiz Nogara) era diretor clínico do hospital Santa Isabel, falou: “Vamos encampar”. Ele abraçou a causa, junto com a Irma Anna Luzia, que era diretora também.

Consegui que uma anestesista entrasse no nosso grupo, a doutora Jaqueline. Juntamos todos e deu certo: eu, a Dra. Jaqueline, o Dr. Júlio, o Dr. Mauro e o Dr. Joarez (meu pai). No dia 3 de junho de 2002, tivemos aprovação do Ministério da Saúde e do SUS para poder fazer transplante. No dia 18 de agosto, agora, fez 24 anos que nós fundamos o serviço de transplante, e fizemos o primeiro transplante de fígado no estado de Santa Catarina.

O senhor tem ideia de quantos transplantes?
Sim: 2000. Vamos continuar para atingir muito brevemente 3000 mil transplantes. Hoje em dia, o transplante é considerado uma jóia do hospital

Todo esse trabalho é feito pelo SUS?
Pelo SUS. Tem também convênios, mas 98% é SUS. A gente consegue fazer tudo: a fila, o pré, o pós, o transplante, tudo pelo SUS. O paciente não gasta nada.

Doutor, alguma restrição? Falta equipamento que poderia ajudar mais?
A gente tem avançado bastante, mas sempre é necessário. Toda ajuda que derem é necessária, são coisas pontuais. Por exemplo, bom seria ter uma sala exclusiva para fazer transplantes. Aparelho de ar-condicionado melhor, para dar conforto para aos cirurgiões – tudo isso é sempre bem-vindo.

Talvez uma casa de apoio pra quem é de fora?
Eu ia falar sobre isso.

Meu irmão ficou em hotel aqui; no pós-transplante, eu imagino gente que não tenha recurso…
Exatamente.

Muitas baixas nesses quase dois mil transplantados?
Olha, tem, como toda cirurgia grave, né? Se a pessoa estivesse bem não seria transplantada. A gente só opera casos graves. O primeiro a ser atendido sempre é quem está mais grave. Esse sistema novo, que é o Meld (sistema numérico usado para avaliar a gravidade de doenças hepáticas crônicas e definir a prioridade na fila de transplante de fígado) vai para o critério de gravidade. Não importa se você entrou na fila ontem, já pode ser chamado no dia seguinte, porque está muito grave. Às vezes, quem está inscrito há um mês vai esperar. A nossa taxa de sobrevida é muito boa, se comparar com as demais do Brasil e as dos Estados Unidos, nós temos taxa de sobrevida de mais de 85%.

E a demanda, estão conseguindo atender quanto?
Estamos atendendo bastante. Graças a Deus, o povo catarinense é muito consciente dessa parte de doação. Nós temos o melhor índice de doação do Brasil. É um índice, quarenta e dois por milhão de habitantes, isso é muito alto. Para você ter uma ideia, é quase como na Espanha, que é o melhor do mundo; melhor que Estados Unidos e Alemanha. A nível de Brasil, a doação é 25 por milhão; nós, em Santa Catarina estamos em 42 por milhão. Então nossos níveis são excelentes. A nossa lista de transplante é muito pequena, porque entra um, transplanta, entra outro.

Quantos transplantes são realizados por mês?
Estamos com uma média de dez transplantes por mês. É um nível muito alto: cento e vinte por ano. É uma média muito boa. O Estado vai muito bem, funciona muito bem tanto a parte de captação de órgãos, quanto a parte de implantação de órgãos.

Alguma coisa que eu deveria perguntar para possibilitar mais informação?
Não, eu acho que você perguntou bastante, e eu acho que o mais importante nisso tudo que você gostou, que você falou nessa congregação da equipe. Uma equipe muito coesa, se bem que é uma equipe pequena que transplanta bastante. E o que eu pediria é para divulgar mais doação de órgãos. Eu acho que time que está ganhando, tem que manter ganhando.

O número que o senhor me deu, de 2000 mil transplantes, inclui fígado, rins e outros?
Não, só de fígado. De rim já foram quase quatro mil. De coração é bem menos.
O governo está fazendo a sua parte?
Sim, é importante que o governo mantenha também essa política de boa remuneração, a gente tem que falar nisso. Não se pode dizer que está tudo lindo, maravilhoso, que a gente tem que se acomodar, mas o governo manter as taxas de remuneração é um incentivo para toda a equipe do hospital, porque a gente sabe que hoje em dia os hospitais têm muito prejuízo. A gente não gosta de entrar nessa parte financeira, mas é importante. Nos hospitais que acompanhei nos Estados Unidos, junto com a equipe médica sentava um financial advisor: um controlador financeiro para cuidar da parte financeira.

Por Álvaro Castro

Publicada na Revista Sopa de Siri – edição 291 outubro/2026 – páginas 06 e 07

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