Bagagem
Alfa Bile
Nem toda bagagem cabe numa mala.
Quando nascemos, carregamos apenas o peso do próprio corpo. Com o passar dos dias, quase sem perceber, tornamo-nos acumuladores — ou talvez bibliotecas — das nossas vivências. Algumas chegam pela repetição, outras pela oralidade, muitas pela ausência.
Vivemos em uma época em que dedicamos incontáveis horas ao corpo. Medimos o peso na balança, enfrentamos o espelho, perseguimos números e formas. Mas raramente nos perguntamos sobre aquilo que curva nossos ombros sem jamais alterar um único grama.
Há pesos que nenhuma balança registra.
Escrevi este poema pensando nessas bagagens invisíveis que moldam quem somos. Algumas nos fortalecem. Outras apenas nos acompanham por tempo demais. Talvez amadurecer seja descobrir que seguir em frente também exige escolher o que merece continuar sendo carregado.
Bagagem
por Alfa Bile
Quando começam os passos, os bolsos ainda estão vazios.
As mãos, antes livres, aprendem a agarrar o que julgam necessário.
Uma pedra bonita.
Um galho torto.
Uma concha.
Depois, promessas.
Expectativas.
Histórias.
Perdas.
Sem perceber,
os joelhos falham.
Os ombros aprendem o peso dos anos.
Há passos que cansam sem sair do lugar.
Cansam pelo que carregamos.
Existem pesos que a balança nunca registra.








