Esse é um telefone fixo analógico de disco que herdei dos meus avós, comum no Brasil entre os anos de 1960 e 1980. Hoje ele adorna meu escritório e serve também para que nunca esqueçamos dos anos de chumbo no Brasil, período em que ele foi comumente utilizado.
Charles Chaplin morreu no ano que nasci, 1977, portanto, ele poderia ter utilizado referido telefone pra dizer o seguinte:
“Sinto muito, mas não quero ser imperador. Isso não me interessa. Não quero governar nem conquistar ninguém. Gostaria de ajudar a todos, se possível: judeus, gentios, negros, brancos. Todos queremos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver da felicidade uns dos outros, não da miséria alheia. Não queremos odiar nem desprezar uns aos outros. Neste mundo há lugar para todos. E a boa terra é rica e pode prover para todos. A vida pode ser livre e bela, mas nos perdemos do caminho.
A ganância envenenou a alma dos homens, barricou o mundo com ódio, nos conduziu à miséria e ao derramamento de sangue. Desenvolvemos a velocidade, mas nos isolamos. As máquinas que nos dão abundância nos deixaram na miséria. Nosso conhecimento nos tornou cínicos. Nossa inteligência, dura e cruel. Pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e gentileza. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido…
O avião e o rádio nos aproximaram. A própria natureza dessas invenções clama pela bondade nos homens – clama por fraternidade universal – pela união de todos nós. Mesmo agora, minha voz alcança milhões em todo o mundo – milhões de homens, mulheres e crianças desesperados – vítimas de um sistema que leva homens a torturar e aprisionar inocentes.
Àqueles que me ouvem, eu digo: não se desesperem. A miséria que agora nos assola é apenas o reflexo da ganância, a amargura de homens que temem o caminho do progresso humano. O ódio dos homens passará, os ditadores morrerão e o poder que tomaram do povo retornará ao povo. E enquanto houver homens que morram, a liberdade jamais perecerá…
Soldados! Não se entreguem a brutos — homens que os desprezam, que os escravizam, que regimentam suas vidas, que lhes dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir! Que os treinam, os submetem a dietas restritivas, que os tratam como gado, que os usam como bucha de canhão. Não se entreguem a esses homens desumanos — homens-máquina com mentes e corações de máquina! Vocês não são máquinas! Vocês não são gado! Vocês são homens! Vocês têm o amor da humanidade em seus corações! Vocês não odeiam! Só os que não são amados odeiam — os que não são amados e os desumanos! Soldados! Não lutem pela escravidão! Lutem pela liberdade!
No capítulo 17 de São Lucas está escrito: “o Reino de Deus está dentro do homem” – não em um homem só, nem em um grupo de homens, mas em todos os homens! Em você! Vocês, o povo, têm o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vocês, o povo, têm o poder de tornar esta vida livre e bela, de fazer desta vida uma aventura maravilhosa.
Então, em nome da democracia, usemos esse poder, unamo-nos todos. Lutemos por um mundo novo, um mundo decente que dê aos homens a oportunidade de trabalhar, que dê aos jovens um futuro e aos idosos segurança. Com a promessa dessas coisas, os brutos ascenderam ao poder. Mas eles mentem! Eles não cumprem essa promessa. Nunca cumprirão!
Ditadores se libertam, mas escravizam o povo! Agora, lutemos para cumprir essa promessa! Lutemos para libertar o mundo, para acabar com as barreiras nacionais, para acabar com a ganância, com o ódio e com a intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo onde a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos. Soldados! Em nome da democracia, unamo-nos!”
O texto acima é do filme “O Grande Ditador”, produzido, dirigido e estrelado por Charles Chaplin, e o mais interessante é que Chaplin foi profético, visto que o filme estreou antes do holocausto, quando ele, como Judeu, já havia conseguido fugir da “caça” aos Judeos e minorias, promovidas pelo nazismo.
MURILO ZIPPERER – Advogado e Ex-Presidente da OAB de Itajaí
Revista Sopa de Siri – edição 287 junho/2026 página 34









