Quem passa hoje pela Vila Operária, seguindo o trajeto da rua José Eugênio Muller, nem sequer tem a mínima ideia de que essa rua na década de 50 era conhecida como a rua da Figueirinha.
Morar na rua da Figueirinha, naquela época, era viver no paraíso. Doces recordações da infância permeiam o meu imaginário quando lembro daquela larga avenida com um canteiro central onde se erguiam majestosas figueiras.
Foi ali, pisando naquele solo, ouvindo o piar dos passarinhos, rindo e correndo da nossa casa em direção a casa da D. Mazilda brincar de casinha com a Marlete. Cercada de amigas, foi ali que vivi os melhores anos de minha infância. Compartilhamos momentos de felicidade com a Vera Athaide, minha comadre Lelda, a loira Maria do Carmo, filha do Seu Gil Amaral a quem chamávamos de ” nega”. Pedalar numa bike era como planar sob as nuvens ao lado das andorinhas na pista da rua Figueirinha de lá prá cá, de cá pra lá, rindo, gritando, sorvendo gotas de felicidades.
Aos oito anos comecei os estudos no Grupo Escolar Floriano Peixoto cuja proximidade da nossa casa me permitia ir a pé para a escola. Fiz grandes amigas que conservo até hoje. Tenho viva na lembrança muitas das professoras, uma das quais D. Ing na primeira série que coloria palitos de fósforos para nos ensinar aritmética.
Nasci em Luiz Alves, Distrito de Itajaí, onde meu pai fora nomeado Intendente pelo Prefeito Marcos Konder na década de 30. Lá moravam minha vó materna, os tios e primos, os Luchetas, os Lucianes, os Bonelli. A colonização italiana em Luiz Alves era muito forte e influente. Quantas férias passamos naquele cantinho perdido no mato que tinha mais árvores que gente. Passear em Luiz Alves era sempre uma aventura. Meu mundo infantil era a rua da Figueirinha em Itajaí e as férias em Luiz Alves.
Papai veio morar em Itajaí e escolheu uma morada na rua da Figueirinha nº175 e nunca mais saímos de lá enquanto solteira. Tive dois irmãos e três irmãs, Daniel e Osvaldo, Celina, Cecília, Célia, todos nascidos em Luiz Alves. A nossa casa em Itajaí ficava nas imediações da pracinha e atrás da Igreja Nossa Senhora da Paz.
Uma velha casa que resistiu as intempéries do tempo até ser demolida após o falecimento dos meus pais, anos mais tarde. Meu marido, já advogado, conduziu o inventário e a partilha dos bens do único patrimônio deixado aos herdeiros. A casa foi vendida à Paróquia e no local erguido um salão de eventos.
As árvores daquela rua não eram majestosas e imponentes como os coqueiros da Avenida Joca Brandão, mas as figueiras tinham charme, presença, eram frondosas e derramavam sombras nos dias quentes de verão.
O Prefeito Lito Seara resolveu fazer uma modernização eliminou o canteiro central da Figueirinha, cortou as árvores todas, unificou a pista de rolamento, mas não mexeu nas calçadas. Mudou completamente a cara da rua causando um enorme descontentamento nos seus moradores. Éramos crianças e não gostamos nada dessa modernização. A rua da Figueirinha perdeu o seu encanto, sua magia e mudou até de nome passando a se chamar rua José Eugênio Muller.
Quando relembro do meu passado a rua da Figueirinha surge como um período faceiro, agradável, da minha infância, depois da minha adolescência, dos meus primeiros namoricos e do meu casamento.
Para mim a velha rua continua em algum lugar do passado e será sempre lembrada em meu coração de menina como “A rua da Figueirinha”.
Cilda Silva Bonelli dos Santos, graduada em Letras (Univali), é professora aposentada pela Rede Estadual de Educação
Revista Sopa de Siri – edição 288/julho 2026 página 23









