ITAJAÍ – UM PORTO RESILIENTE por Robert Grantham

ITAJAÍ – UM PORTO RESILIENTE

            Ao longo de sua história, o porto de Itajaí teve uma história de sucesso, intermeado com crises, todas superadas por conta da resiliência da sua comunidade portuária

O porto organizado de Itajaí remonta a 1966 quando o Governo Federal instituiu a “Junta Administrativa do Porto de Itajaí – JAPI” Nessa época a principal atividade do porto era a maciça exportação de pinho do paraná, que perdurou até meados da década de 1970, quando, por quase extinção das florestas de araucária essa pauta de exportação deixou de existir. Essa foi a primeira crise do porto. A seguir, graças as empresas processadoras de frango do Oeste Catarinense que começam a desenvolver a exportação de frango congelado, em navios convencionais, cuja primeira operação por um pool de empresas, chamado UNEF deu-se em 28 de julho de 1975, com um lote de 750 toneladas para a Arabia Saudita, abrindo-se um novo capítulo.  Em paralelo, a exportação de açúcar, com alguma pequena produção local e majoritariamente proveniente de São Paulo, surge uma nova pauta. Aos poucos a operação de contêineres foi assumindo protagonismo.

Em julho de 1975 foi criada a Portobrás e a JAPI transformou-se em Administração do Porto de Itajaí, diretamente subordinada à Estatal Federal, que em 15 de março de 1990 foi extinta pelo Governo Collor. Sem personalidade jurídica própria, a solução foi incorporar o porto à Companhia Docas de Santos – CODESP, a mais próxima estatal portuária federal. E mais uma crise instalava-se, já que o porto de Santos, com seu gigantismo e problemas de toda ordem, não tinha condição de gerir o então, ainda, pequeno, mas promissor porto de Itajaí.

A comunidade engajou-se e não aceitando essa esdrúxula subordinação, foi a Brasília atrás de uma solução. O então prefeito de Itajaí, Arnaldo Schmidt Jr propôs a delegação provisória da administração do porto ao município, provando ser perfeitamente legal e factível. Criou-se então a ADHOC (Administradora Hidroviária Docas Catarinense) em julho de 1995 pondo fim a mais uma crise. Na sequência, diante dos bons resultados verificados, em 1º de dezembro de 1997, foi assinado o convenio definitivo de delegação ao Município de Itajaí pelo prazo de 25 anos

Na entrada do Século XXI, a Administração já com o nome de Superintendência do Porto de Itajaí lançou o edital de concorrência para a exploração do Terminal de Containers, a ocupar uma área total de 24 mil m2 e com obrigação de construir mais 250m de cais. O contrato de concessão, com 22 anos de vigência entrou em vigor em janeiro de 2002, vencido pelo consorcio TECOVI que alguns anos mais tarde (2006) transferiu-o para a APM Terminals.    

            Transcorria o ano de 2008 quando em outubro desse ano uma das mais catastróficas enchentes da história abateu-se sobre o Vale do Itajaí. A força do rio foi tanta que simplesmente levou para o fundo dois berços de atracação do porto e assoreou o seu leito reduzindo em poucas horas o calado para menos de sete metros, levando ao fechamento da barra por longos dias.  Era mais uma crise de proporções a impactar não só o porto, mas toda a economia da região.  Em pouco tempo a sociedade articulou-se e conseguiu que o Governo Federal viesse em socorro, fazendo uma dragagem emergencial para restaurar a profundidade e lançando um edital para a reconstrução dos berços destruídos. Ao longo de 2009 as obras tiveram ritmo acelerado e o calado retornou aos valores pré enchente. A isso tudo se somou a crise global a partir da quebra do Banco Lehmann Brothers em setembro de 2008. Mesmo assim, ao final de 2009 o porto retomou o posto de 2º maior movimentador de containers do país, superando mais uma crise.

            Uma enchente de menores proporções ocorreu em setembro de 2011, mas suficientemente forte para provocar o recalque do recém-construído berço no 01 da APM Terrminals, que ficou paralisado por 13 meses para obras de reestruturação e reforço, impactando na redução de capacidade de atracação do porto. Outra crise, superada pela iniciativa privada, nesse caso.

Em dezembro de 2022 o contrato de arrendamento do terminal de contêineres da APM expirou e a Administração do Porto propôs um contrato transitório à empresa Dinamarquesa até junho de 2023, enquanto buscava uma solução de continuidade. Ao final desse prazo a empresa anunciou sua saída definitiva de Itajaí. Uma nova e grande crise se instalava, com o porto de Itajaí deixando de operar contêineres. Após uma tentativa desastrada da Administração do Porto em conduzir uma licitação para um contrato emergencial, que veio a ser barrado pela ANTAQ, essa agência conduziu uma licitação em setembro de 2023. O primeiro colocado foi desqualificado e o segundo colocado, a Mada Araújo foi classificada e assinou contrato para gestão provisória do terminal, mas não conseguiu iniciar operações, tendo transferido o contrato para a JBS Terminais, empresa que investiu R$ 230 milhões na recuperação da infraestrutura e aquisição de equipamentos, com isso superando uma das mais graves crises vividas pelo porto de Itajaí, recuperando a movimentação, trazendo novas linhas de navegação. Trata-se, porém, de um contrato transitório, enquanto se aguardam duas novas licitações: o arrendamento definitivo do terminal de contêineres por 35 anos, renováveis e outra para a gestão do canal de acesso, por 25 anos, igualmente renovável. E assim, nosso “pequeno/grande porto” segue sua trajetória de sucesso, vencendo obstáculos e dificuldades, mercê da resiliência da gente de Itajaí.

Robert Grantham – Agente Marítimo e Diretor Comercial e Executivo do Porto de Itajaí de 2009 a 2012.

Revista Sopa de Siri edição 290/setembro 2026 páginas 34 e 35

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