Escopo

Hang Ferrero

escopo

no íntimo deste peito quebradiço

e escancarado por poemas natimortos,

é sempre qualquer noite mal resolvida,

quase sempre e quase nunca,

e é sempre culpa qualquer noite,

e é sempre culpa-noite-minha.

desta superfície que excomunga

a pressa líquida que sai dos poros,

molha os pelos e salga a pele,

que é a minha; pelos, poros e a pele minha.

e que desce as ranhuras acusatórias

da complacência, que seca sob o efeito

do temor que ronda a coisa de toda sorte.

gestada enfraquecida, pulsilânime

e mal vestida de pouco a pouco,

enxarcada de fogo e de éter,

desnuda da vergonha a duras penas

e registrada na cama da língua,

a mesma língua que é a minha;

o véu, o éter, a cama e a língua minha.

que de nada serve senão ao propósito

das tais preces tingidas de fome afora,

e que aceita a pungência da loucura,

por não sentir por salina a desgraça

e se presta retida na anatomia desta boca,

a mesma boca que é a minha;

a loucura, a anatomia e a boca minha.

que se cala e se perde nas inferências

de uma cabeça bagunçada pela febre,

a mesma febre que é a ira de todo crença,

por ser minha, sempre minha,

feito causa e razão de toda a beleza

que suscita da desventura de um mundo

que se arrisca prum só lado de rotação,

carregando a minha vertigem,

de genitura minha, sempre minha:

juízo versus coração.

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