CRÔNICAS EM SÉRIE - Nelson Abrão de Souza

Ex flumine magnitudo mea, uma expressão latina escrita num listel, atravessado numa das primeiras bandeiras do município de Itajaí é o eixo desta crônica. Esta frase que sua tradução nos revela “do rio vem a minha grandeza”, refletia a vocação da jovem Itajaí nos meados do século 19, remontando aos taiás, a igrejinha do curato de 1824, a proa de um navio amarrada ao cais, dentre outras significativas ilustrações. Uma nobre homenagem ao rio Itajaí-açú e ao rico território itajaiense. Na linha do tempo, o contributo do rio foi esquecido e abandonado à sua própria sorte, surgindo a proeminência dos admiráveis portos institucionalizados, aos quais fazem do rio um promíscuo subserviente natural. Vê-se que o território itajaiense, que na bandeira é composto de 8 (oito) porções ou módulos, como regiões integradas, ao ponto de honra, representando o governo municipal, muito pouco evoluiu. O valioso espaço territorial disponível vem sendo dominado por contestável crescimento. O que diriam os idealizadores dessa bandeira, os senhores José Ferreira da Silva e Acary Margarida, hoje, acerca desta transmutada realidade? Sensíveis como são os poetas e os amantes de qualquer arte, provavelmente diriam: “não entenderam a nossa icônica mensagem, caro colega!” Nós, como políticos de sã raiz, somos instados pelo amor que rendemos à nossa pequena pátria e, frontalmente, opor-nos à vergonhosa insensibilidade desses dos políticos e à sua conduta debochada ante aos mínimos princípios de governança da coisa pública. É afastando tais princípios da sua responsabilidade governamental, que dá margem a uma ocupação do território municipal, com largos privilégios construtivos, produzindo desigualdades regionais e sociais na ordem habitacional. Esta latência é altamente nociva. Em primeiro lugar, vemos bolsões de pobreza em franco crescimento, para os quais os governantes fazem de conta que não veem; moradia, saúde e educação, direitos básicos do cidadão e dever do Estado são negligenciados sem a menor cerimônia. Uma vergonha! Em segundo lugar, não menos importante que o primeiro, é a situação desprotegida dos recursos hídricos, como os manguezais, as nascentes, as margens de rios, as integrativas  sub-bacias dos ribeirões,  o agonizante rio Itajaí-mirim, o rio novo de onde coletamos a água para beber e o próprio Rio Itajaí-Açú. Este rio, que ainda hoje, mesmo permanecendo como condutor de riquezas é tão marginalizado, tão desrespeitado, tão subserviente e tão menosprezado, a ponto de somente seus portos serem cultuados, como se pudessem existir sem o rio. Estes poderosos e arrogantes portos, que enrugam, sem cessar, suas margens outrora gloriosas, esquecem que    os chamados “cais”, ancestrais foram tratados tão respeitosamente, por pessoas que foram os pioneiros do nosso povo progressista. Assim nasceu a glória de um rio numa missão de prosperidade aos itajaienses e segurança aos que o exploravam. O rio há muito tempo é nosso parceiro vivo e precisa ser tratado como tal. Até quando os ingratos e gananciosos políticos não o reconhecerão? Nesse contexto, até a história se parece como uma maldosa madrasta. Afinal, e o listel “EX FLUMINE MAGNITUDO MEA”, onde ela o abandonou?