Outra Arquitetura

Alfa Bile

Chegou ao mundo —

uma casa já erguida

para corpos iguais.

Chorou cedo —

um alfabeto de água

que ninguém decifrou.

Transbordava por dentro.

Por fora,

silêncio.

Dentro dele

o tempo não passa.

Relampeja.

Chamam de falta.

Mas seus olhos

transbordam mundo.

Não existe fila.

Tudo acontece

ao mesmo tempo.

Enquanto o mundo

pensa uma coisa de cada vez,

na sua mente

ecoam

vozes,

buzinas,

apitos —

uma cidade inteira

dentro da cabeça.

Não há espaço

para o normal.

Apenas excesso.

Na rua

seus olhos recolhem

detalhes,

nuances,

gestos nus.

Seu jeito ganhou nomes:

transtorno.

espectro.

déficit.

Palavras pequenas

para um universo.

Pedem foco.

Calma.

Ordem.

Mas dentro

um vento antigo

remexe o caldeirão.

De lá nascem

outras formas

de criar.

Caminhos

que ninguém pensou.

Tudo transborda.

Esqueçam a ordem.

É tempestade.

Uma mente

que refaz o mundo

à sua maneira.

Cores novas.

Outra bandeira.

Paradoxo:

Tropeça na rotina

mas navega

entre constelações.

Chora

ouvindo música.

Sente a dor

que atravessa os outros.

Do caos

faz linguagem.

E às vezes

sozinho,

com os pés na areia,

chora.

Mil interesses.

Sem fila.

Apenas sente.

O mundo

ainda não entende.

Não é falha.

É outro modo

de organizar

o infinito.

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