Victor José Wietcowsky


Victor José por Victor José

O Victor José é o cara que ainda se sente aquele cara simples, sonhador, sempre pensando no melhor para a cidade. Você é natural de Botuverá?
Minha mãe só foi para Dom Joaquim para eu nascer lá, no Hospital Dom Joaquim, e no dia seguinte voltei para casa. No documento consta Brusque, mas quando me perguntam minha naturalidade, digo que é Botuverá. Eu sou Botuverá. Levo Botuverá acima de qualquer questão política, religiosa ou das diferenças que possam existir entre os moradores da cidade. Para mim, Botuverá está sempre acima de tudo.

Como está o relacionamento entre o Executivo e o Legislativo de Botuverá neste momento?
A Oposição tem um Vereador a mais. Sempre há embates políticos. É natural da política haver diferenças, mas eu sempre deixei as portas abertas. Sempre que eles marcaram reuniões comigo, eu atendi e deixei bem claro: as portas do gabinete estão abertas para todos. Todos os meus secretários estão orientados a atender todos os vereadores. Eu sou um cara do diálogo. O prefeito Victor, assim como a pessoa Victor, é um cara do diálogo, apesar das diferenças políticas. Cidade pequena é muito pior nesse aspecto do que cidade grande, porque é tratado quase como se fossem dois times de futebol. A rivalidade política acaba sendo maior. Mas eu sempre vou levar o diálogo como primeira opção.

O que ninguém conta sobre ser prefeito de uma cidade como Botuverá?
O que ninguém conta são as dores de cabeça, as noites sem dormir. Quantas vezes eu acordo durante a noite para tomar água ou ir ao banheiro e começo a lembrar tudo o que tenho que fazer no dia seguinte, na outra semana, e não consigo mais dormir porque há muita coisa para fazer. Às vezes saio do quarto, vou até a escrivaninha, pego a agenda para não acordar minha esposa e meus filhos e fico ali anotando tudo o que preciso fazer para não esquecer.
Acho que esse é o tipo de coisa que ninguém conta: o prefeito é igual a todo mundo. Quando assumimos o Executivo, as pessoas passam a enxergar o prefeito como se ele fosse algo distante, como se estivesse acima de qualquer coisa. Não, o prefeito continua igual.

Botuverá tem uma história marcada pela imigração italiana. Essa herança ainda es-tá presente no cotidiano da população?
Claramente. Se você sair e passear por Botuverá, ficar um dia aqui, vai encontrar pessoas, geralmente da minha idade, dos quarenta anos para cima, falando no dialeto bergamasco, que foi de onde veio a maioria dos nossos imigrantes. Também há quem fale tirolês e trentino. Minha descendência italiana é uma mistura de bergamasco e belunesi, da região de Belluno, no Vêneto. Meu falecido nono tinha o dia-leto do Vêneto e minha faleci-da nona, o bergamasco. En-tão, hoje você ainda passa por Botuverá e, ao ouvir as pes-soas, parece que está em ou-tro país.
A cultura também está presente na arquitetura e no jeito simples de viver. Botuverá não parou no tempo, mas a cultura italiana permanece até os dias de hoje. Os imigrantes que vieram da Itália não eram milionários. Eram pessoas que tinham dificuldades ou viviam em regiões onde a lavoura não era muito favorável, com dificuldades de terra, encostas e morros. Vieram para sobreviver e tentar construir uma vida melhor. Eram pessoas acostumadas ao trabalho duro. A característica do povo italiano é ser simples, mas empreendedor. Eles vieram da roça na Itália para trabalhar na roça aqui, mas trouxeram aquele empreendedorismo. Cresceram, deixaram de ser agricultores e hoje a maioria aqui é industrial.

O relevo de Botuverá não ajuda muito, não?
Não. É muito morro. Mas há uma curiosidade: se os primeiros que chegaram aqui foram italianos, a grande primeira imigração foi a polonesa. Os poloneses saíram da colônia sendo operários de fábricas, das malharias e tecelagens, e vieram para Botuverá. Não se adaptaram porque trabalhar na roça não fazia parte da vivência deles. Por isso, muitos voltaram para Brusque, onde o cônsul começou a colocar fábricas, ou foram para Curitiba. Só ficaram os mais teimosos dos poloneses. Minha família se inclui. Depois vieram os italianos, que estavam acostumados com a roça e vieram trabalhar na agricultura aqui.

A Festa Bergamasca vem crescendo e já se consolidou como um dos grandes eventos da região. O que ela representa para o município?
A Festa Bergamasca mantém viva aquela chama cultural, aquela tradição que temos tanto orgulho de preservar. Eu tenho descendência polonesa e italiana. A cultura polonesa aqui não é tão divulgada, mas tenho muito orgulho de dizer que sou descendente de italianos e nós revivemos essa cultura todos os anos através da Festa Bergamasca. Através da culiná-ria, queremos apresentar aos turistas o que é a comida italiana. Temos a missa no dialeto bergamasco. Nem em Bergamo é mais rezada missa nesse dialeto, e aqui temos essa mis-sa realizada dessa forma. Também temos as danças típicas e a música. Queremos mostrar aos turistas e visitantes o que é a nossa cultura. Se fizermos uma festa baseada somente nessa cultura, teremos um número limitado de visitantes. Por isso, unimos a tradição com atrações nacionais. A pessoa vem para assistir a um show nacional no pavilhão principal, mas transita por todo o espaço da festa. Vai ao pavilhão cultural, vê a música italiana, a dança e come uma comida típica italiana. Queremos trazer as pessoas para conhecer nossa cultura. Todos que vêm gostam. No domingo, por exemplo, começam as atrações nacionais, mas às dez horas da manhã já temos a missa em italiano, em bergamasco. Assim, as pessoas vêm e conhecem nossa cultura. Eu quero difundir nossa cultura. A Festa Bergamasca é para isso.

Eu vim diversas vezes a Botuverá: num almoço de comida típica com variada gastronomia italiana; na Festa Bergamasca; num evento cultural quando participei como jurado; e na instalação da Academia de Letras.
Alguns anos atrás, essa gastronomia típica italiana acabou se perdendo um pouco. Vinham pessoas de fora para fazer a polenta, mas ela não tinha o gosto da polenta italiana que era feita aqui. Nas últimas duas festas, resgatamos isso e colocamos pessoas da cidade para fazer a comida.

Outra vez visitei a caverna. Achei muito bacana, embora tenha sofrido bastante, escadas com descidas íngremes, e tetos baixos. Fui até onde estava aberto. A Andreia comentou que fecharam mais uma sala.
Hoje são três salões. Entrar na caverna é viver uma experiência emocionante inesquecível.

O município tem investido em educação, tecnologia e infraestrutura. Como isso prepara Botuverá para os próximos anos?
Neste ano investimos em robótica na educação. O mundo está em constante evolução. Precisamos manter nossas tradições, mas também preparar nossos alunos para o futuro. Com aulas de robótica e informática, o aluno sai da escola mais preparado. Também tenho uma ideia de que a educação precisa ser moldável. Ela não pode ser somente aquela grade curricular tradicional: português, matemática, história. Acredito que podemos desperdiçar talentos quando obrigamos todos os alunos a seguir exatamente o mesmo modelo.
Respondendo à questão do investimento educacional, adquirimos um terreno de cinco mil metros quadrados no centro para construir uma nova escola, do zero, totalmente planejada, do primeiro ano do ensino fundamental até o ensino médio. Queremos que essa escola seja integrada com salas para o ensino integral do primeiro ao quinto ano. A criança entra de manhã e sai à tarde. No contra turno, aprende alguma coisa que poderá ser útil para o futuro. As salas serão equipadas com computadores. Teremos laboratório de informática, laboratório de ciências e estrutura para robótica.

Se você pudesse convidar o leitor da Sopa de Siri para conhecer Bo-tuverá em um fim de semana, qual seria o roteiro ideal?
O roteiro ideal seria alugar uma pousada ou um chalé em Botuverá. O turismo rural está crescendo. Ainda não temos uma grande rede hoteleira, mas temos algumas pousadas e chalés, e isso vai crescer cada vez mais. Também está vindo investimento de fora. Daqui a dois ou três anos, teremos um complexo turístico próximo às cavernas. A ideia é atender diferentes públicos, desde quem tem pouco para gastar até quem pode investir mais no turismo. Eu recomendaria vir com a família na sexta-feira. No sábado de manhã, visitar a caverna, que é a maior caverna do Sul do Brasil. Depois, almoçar e, à tarde, conhecer o parque aquático e a região rural do município. À noite, dormir na pousada. No domingo de manhã, cedo, outro ponto turístico muito bom é o Morro do Barão. É uma pedra na divisa entre Botuverá e Nova Trento. São aproximadamente duas horas de trilha pelo meio do mato até chegar ao alto. De lá é possível ver cidades do litoral e o mar. É melhor fazer o passeio de manhã cedo para evitar o calor.

Muito obrigado

Por Álvaro Castro – Revista Sopa de Siri – edição 290 setembro de 2026 páginas 6 e 7

Artigo anterior

Leia também